“Não se justifica nenhuma morte. Mas valeu a pena porque hoje vivemos livres, coisa que não iria ocorrer se estes jovens não saíssem às ruas.” Quem fala é Gladys Bernal, mãe de um jovem morto no Março Paraguaio, que chora a morte do filho mas reconhece a importância da luta da qual ela mesmo participou, marcando uma data importante nesta linha do tempo da política paraguaia que parece dar passos de dez em dez anos. Em 1989, cai Strossner. Em 1999, a população civil defende a democracia. Agora, em 2009, é tempo de “completar o sonho” daqueles dias de março, como vem defendendo Pa’i Oliva.
“Perguntam se o Março Paraguaio valeu a pena. Valeu a pena. Porque impedimos a subida de um projeto de ditador. Mas o custo foi muito grande”, diz o religioso. Na sua opinião, porém, o acomodamento da classe política paraguaia após a renúncia de Cubas impediu a consolidação democrática e estancou as esperanças de um novo Paraguai. Principalmente porque a sociedade civil, protagonista daquela semana de lutas, ficou alijada do processo de reconstrução da institucionalidade.
“Onde estava a classe política, que pedia um país novo? Vendo pela televisão, fazendo seus planos egoístas para depois. O Março Paraguaio é um sonho incompleto da juventude, dos campesinos, dos cidadãos. Agora se pode completar o sonho. O Partido Colorado fracassou. Há uma abertura”, afirma Pa’i Oliva.
Clyde Soto, do CDE, concorda. “Este movimento não foi capitalizado pela cidadania”, diz. Na sua opinião, nada tira a importância da resistência cidadã a uma ameaça de ditadura, mas é preciso reconhecer que a conseqüência do Março Paraguaio foi o fortalecimento do Partido Colorado, que permaneceu no poder por mais dez anos e neutralizou a oposição, cooptando-a, no esteio do governo de coalizão formado após a posse de Luis Gonzalez Macchi.
“O Partido Colorado eximiu-se de toda a culpa pelo ocorrido e manteve-se no poder por mais dez anos, levando à quase inanição dos partidos de oposição”, afirma Clyde. Para ela, o vazio criado com a renúncia de Cubas não foi aproveitado pelos partidos de esquerda, tampouco pelos movimentos sociais. “Esse impasse institucional não significou o triunfo de uma alternativa ao Partido Colorado, pelo contrário, significou um respaldo de dez anos mais”, diz. “E os setores organizados e partidos de esquerda não tiveram nenhuma incidência no que foi o desenlace institucional do paraguaio”, completa.
Por isso, mas também porque a memória sempre é pouco valorizada, pouco se celebra nestes dez anos do Março Paraguaio. A inauguração de uma exposição de fotos, que abriu a semana de atividades promovidas pela organização Memória Viva, esteve quase vazia. Apenas o jornal Última Hora, um dos poucos que em 1999 não amplificou as teses oviedistas, publica matérias diárias sobre o tema. A família de Argaña organizou um ato para lembrar a morte do vice-presidente.




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