Vereadora em Assunção e presidente do Partido do Movimento ao Socialismo (P-MAS), Rocío Casco não concorda com a tese de que o governo Lugo não tem uma linha política clara. “Esse é o Lugo, não é mais nem menos do que é”, diz. Ela acredita que a hora é de fortalecer a unidade e aproveitar o momento político para um crescimento da esquerda no Paraguai.
Você concorda que um dos problemas de Lugo é a falta de uma linha clara de ação?
Não dá para dizer que ele não tem definição. Assim como não se pode dizer que o Estado não atua. O Estado atua de uma maneira que nós não nos sentimos satisfeitos, mas atua. Que Lugo não tenha se definido socialista ou marxista é outra coisa, mas isso não quer dizer que não tenha definição. É uma linha que tem o presidente, ele conversa com todos que acha que tem que conversar. Essa é sua linha de ação.
É o que se tem que fazer de acordo com as características do Paraguai?
É o que tem que fazer e o que não tem que fazer. O processo, neste momento, depende muito de como o campo popular defina suas ações. O presidente conversa com todos os atores, às vezes de forma absolutamente desnecessária. Ele não pode ceder às chantagens. Ademais, é um governo em disputa. Há uma situação de crise em todas as instituições, inclusive em partidos políticos, e a esquerda está fazendo sua acumulação neste processo, com luta e organização.
Com os espaços que possui no governo, a esquerda consegue fazer um bom trabalho?
Há uma imagem fora do Paraguai de que a esquerda tem muitíssimo espaço institucional. O que tem são algumas secretarias com status ministerial, além da chancelaria. Esses companheiros estão desenvolvendo um trabalho numa instituição totalmente podre. Está corrompida de cima a baixo. É uma tarefa difícil, e a esquerda precisa consolidar um conceito de como vamos contribuir. Há que transformar as instituições para que estejam a serviço do povo. Os companheiros que estão no governo se esforçam para contribuir no processo, e mostrar uma gestão diferente da esquerda.
Muita gente diz que Lugo não dá sinais à esquerda. Você acha que é preciso discutir se o governo está em disputa?
Não é um debate a se fazer. O que temos agora são fortes contradições. E no meio delas estamos trabalhando. Quando se diz que Lugo não dá sinais à esquerda, quer dizer que nenhum líder de movimento social foi ocupar cargo no governo, que Lugo não aprovou um projeto importante ou que não se declara socialista. Lugo dá seus sinais. Esse é o Lugo, não é mais nem menos do que é. E somente vai ter posições políticas mais fortes quando o movimento popular unificado exija com maior força e conduza este processo. Se não, não há disputa. Quem está esperando que Lugo dê um sinal, está perdendo seu tempo. O que precisamos é fortalecer as ferramentas da nossa organização, ter claro quais serão nossos objetivos e avançar neste processo.
Esse caráter do governo tem a ver com as características pessoais de Lugo?
Pessoais e históricas de sua formação. Lugo vem de uma das escolas mais antigas da humanidade, o cristianismo. Tudo tem uma solução salomônica, tudo tem seu ponto intermediário. Se esperarmos que Lugo seja o comandante do processo revolucionário, estamos perdendo nosso tempo. Lugo é um ator político importantíssimo, uma figura de consenso no campo popular. Não é uma figura de consenso das classes dominantes., ainda que existam contradições. Mas este é o processo paraguaio. Cheio de contradições. A menos que passemos a viver uma outra situação histórica, o que temos agora é: as instituições vão ser fortalecidas, o presidente tem um programa, vai ver até onde chega com ele, e ponto. Mais do que isso é especulação, é idealismo, é não ter um objetivo claro, exigindo coisas que não vão acontecer, porque não acontecem pela vontade de uma pessoa.
A direita paraguaia continua desarticulada?
Continua e se aprofunda. Cada vez mais eles estão atomizados. Por isso acho que tomamos a decisão correta, que foi a unidade. Tentar criar um instrumento único para onde convirjam nossos movimentos de massa e aqueles que não têm vinculação com partidos de esquerda. Assim, construímos uma ferramenta política. A base dos partidos tradicionais não se sente representada por eles, nem por liberais nem por colorados.
Mas a direita segue com poder sobre o governo.
Sim, porque são grupos mafiosos. Nós saímos com nosso cartaz de cartolina, dizendo “avante, presidente”, e eles têm outros elementos. Neste país, é a máfia que controla tudo. Por isso, há que ter coragem para tomar decisões. Não somos ingênuos de não pensar que o presidente pode sofrer um atentado, um processo político. Por isso queremos sair às ruas para mostrar que há um povo que lhe vai acompanhar nesses passos firmes que tem que dar. Queremos que ele sinta o apoio popular, que não se esqueça que chegou aí por algumas metas. Por isso, precisamos fortalecer nosso instrumento político, que nos permita fazer uma disputa maior com a máfia deste país.




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